cat-textos
27.06.2011

Sozinha, sentada num daqueles bancos mais altos dos ônibus, de cabelos soltos caídos no rosto e vestida com um enorme casaco preto. A garota realmente ficava muito bem de preto.
Uma aparência serena; serena, mas triste. Como se estivesse triste por dentro e não quisesse revelar a ninguém. Impossível. Com aquele olhar fundo, tão distante e cheio d’água seria impossível disfarçar qualquer coisa.
Nos fones ela ouvia uma bela voz rouca, daquelas que combinam alguns anos de cigarros, com outros de talento e afinação.
A música era expressivamente triste, disfarçada pelo som da guitarra rasgada que aparecia de vez em nunca, mas triste que só ouvindo. Nada que abalasse a garota que a ouvia. Pelo contrário, ela gostava. A voz cantava tudo aquilo que ela queria esquecer, tudo aquilo que ela queria apagar da memória, mas, por algum motivo, ela gostava.


Os olhos se perdiam pela paisagem cinza, passavam pelas poucas árvores, acompanhavam as calçadas, analisavam despretensiosamente as pessoas que caminhavam e as outras que corriam para não serem atropeladas. Os mesmos olhos se voltaram algumas vezes para o celular como se estivessem esperando por algo, algo que talvez não existisse mais.
Um breve suspiro e recostou a cabeça na janela. Era difícil ficar naquela posição por muito tempo, a cabeça batia no vidro, culpa do balanço do ônibus, mas mesmo assim ela não se importava. Nem se mexia. Talvez fosse melhor, era um bom preço para ter o vento gelado percorrendo seu rosto.
Trecho de trânsito, tudo parou.
Os olhos caíram, agora estavam fixos no carro ao lado. Do lado de dentro um senhor de cabelos brancos e óculos de grau limpava incessantemente o painel de seu velho carro. Limpava como se nada mais existisse naquele momento. Limpava como se fosse só ele e seu carro azul escuro. Era o seu painel limpo ou nada.
O ônibus acelerou e ela se deu conta que a voz rouca ainda cantava, ainda estava com ela, só com ela, não havia lhe abandonado em nenhum momento. E, desta vez, a voz cantou como se estivesse falando com ela, prevendo o que aconteceria e contando o que aconteceu. Claramente se emocionou e, entre lágrimas, julgou não saber o que fazer dali em diante.
O primeiro passo era o mais fácil: dar o sinal, pois o seu ponto era o próximo. E depois?

Adriana Cecchi

Comentários

7 Comentários | Adicione o seu

  1. disse:

    Se a garota descer no próximo ponto, tenho certeza de que vai encontrar gente esperando por ela. O ‘depois’ ela descobre aos poucos, outra hora.

    Amei o texto, amiga, ficou lindo!
    Te amo!

  2. Natalia disse:

    Apesar do cenário ser um onibus, isso me lembrou uma musica do Pullovers, rs.

    Eu quase sempre fico reflexiva com a vida, embargada numa musica melancolica no fone, quando estou num onibus…

    AMEI o titulo do blog! hahahaha Lindo aqui Dri, parabens!

    Bjs

  3. Leoarcov disse:

    Muito bom. Vozes sempre serão referência sinestésica muito importante na nossa vida. QUase consigo visualizar a cena como em um filme.

  4. Lorena Tavares disse:

    Nossa, já fui pra casa muitas vezes exatamente assim. Olhando pra janela… escutando Red Hot… O engraçado é que sinto muita falta desses momentos. Eram momentos de paz.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *