Ela está lá para todos, mas só usa quem quiser.
Uma realidade paralela.
O mundo para de girar, a cabeça fica distante.
Passa por ruas, avenidas, casas, grandes jardins, prédios, comércios, carros, motos, praças, pontes, muros e concretos. Passa por casais de mãos dadas, crianças de uniforme, moradores de rua, homens de gravata e mulheres de vestido. Passa por semáforo, lixo, gente e bicho.
Quadro em movimento e tempo congelado, paradoxalmente no mesmo vidro.
Tudo fica em suspenso, ao menos por um momento.
Agonias, saudades, angústias, dores, aflições, dúvidas, amores não correspondidos, crises existenciais, arrependimentos, decisões importantes, problemas familiares, urgências, mágoas, preocupações com o trabalho, desejos, julgamentos, medos e anseios.
Qualquer coisa pode ser resolvida ou amenizada enquanto se olha através de uma janela de ônibus.
Os sentimentos passam na mesma velocidade que a paisagem de fora.
As lembranças se desfazem como poeira no asfalto.
A raiva é abafada pelo som do motor.
A impressão de que tudo volta pro lugar a cada esquina, a cada curva, a cada parada brusca.
Janela conselheira, divã de pobre, confessionário público.
A preço fixo, cobra pouco e diz muito, por isso sempre está cheia de clientes.

Adriana Cecchi

Comentários

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  1. Brunno Lopez disse:

    Brilhante Adriana.
    A parte que você desdobra a ideia e chega ao incrível ‘confessionário público’, matou a pau.
    Aqui sempre vale a visita.

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