No meio de uma complexa conversa de mesa de bar, um amigo virou e mandou:

— Me fala três coisas que você ama e não se imagina sem. Rápido.

Assim, na lata. Eu parei; parei e pensei. Pensei por um bom tempo e não consegui soltar uma palavra sequer.

— Caralho, como assim você não ama nada?
— Não. Não é isso. É que em tudo o que eu pensei, sei que posso viver sem.
— Ah então você se basta, não precisa de nada?
— Na real, ninguém precisa de nada nem outro alguém. Pessoal tem mania de confundir o “querer” com o “precisar”. A única coisa que a gente precisa nessa vida é de água.
— Não dá pra conversar com você.
— Cala a boca e toma sua cerveja então.

Sabe, o verbo amar sempre foi um verbo complicado pra mim, afinal, o que significa essa porra toda de amor? A maioria dos grandes amores que vejo por aí estão acompanhados de inúmeras cobranças, dúvidas e sentimentos de posse.
Por exemplo, se você ama o seu carro, é porque provavelmente você pagou pra ele ser seu e poder usufruir de suas funções e comodidades, ok. Logo, você não vai querer emprestá-lo pra qualquer um, já que você ama aquilo e você não vai deixar ninguém bater, riscar, buzinar, fumar, cagar no seu carrinho.
E você, cara casado com sua esposa toda toda, aposto um dedo que odiaria vê-la dando pra outro cara na sua frente. Porque afinal ela é a sua esposa, não é mesmo?
Não gosto de generalizar, mas o amor sempre vem com a ideia de posse e também sempre será justificado através disso, a menos que role uma dose de desapego…

— Então você nunca amou nada, é isso?
— Amei. Amo. Não sei, e se por acaso eu dissesse que não?

Será que tudo que eu amei, amei sozinha, como diria meu querido Edgar Allan Poe? E se era amor, por que passou? Porque tudo sempre passa e quando você descobre isso – de verdade – encontra a chave pro tal do desapego. Não é regra nem tem receita, o negócio é saber lidar com as prioridades.
Eu não estou aqui cultuando o ódio, muito pelo contrário. Só não acho que as pessoas devem vir tão carregadas com essa idealização de “transbordar amor”. Jogarem suas vidas em cima de algo ou alguém, como se um “eu te amo” pudesse ser a solução e justificativa pra tudo. Não é. Tá bem errado e bem longe de ser.

— Eta coração de gelo do caramba.
— Jamais!

Não tenho nada contra o amor, por favor, mas o que fazem com ele é de uma responsabilidade imensa. Reduzem a vida a pequenezas e a felicidade a amar. Pra mim, parece que as pessoas se sentem obrigadas a amar o tempo todo e que precisam provar isso para serem vistas como seres de “bom coração”, quando na verdade a única coisa que elas realmente precisam é de um pouco de paz e nada mais. (E água, claro!)
Já dizia Drummond: “Carlos, sossegue, o amor é isso que você está vendo: hoje beija, amanhã não beija, depois de amanhã é domingo e segunda-feira ninguém sabe o que será.”

— Ou cê é muito amarga, meu deus do céu.
— Deixa eu te contar um segredinho: ninguém nunca morreu de falta de amor. Sabia?
— Vamos mudar de assunto?
— Por favor! Moço, traz mais duas geladas que a galera se exaltou.

Comentários

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  1. Gustavo disse:

    sabe o que acho? é que os seres-humanos necessitam de um certo tipo de amor que nunca algum de nós, enquanto ser-humano nesta terra, conseguiu emitir (talvez, exceto, as crianças. já viu aquele MEME no Facebook: “Eu Amo Quem Eu Quiser”?). buscamos por água, mas só o que temos é cerveja: bêbados, machucados, possessos e possessivos, continuamos a viver e a “amar”.

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