“O fato de que existo prova que o mundo não tem sentido.”

Nos Cumes do Desespero

Eu tinha comentado sobre esse livro no vídeo de leituras do ano passado, queria ter feito essa resenha antes, mas Nos Cumes do Desespero estava esgotado na editora e até nos sebos. A Editora Hedra republicou o livro e todo mundo poderá usufruir do ceticismo-niilismo-pessimismo de Emil Cioran!

Caso tenha interesse na leitura, compre o livro através deste link, a Hedra ofereceu um descontinho especial para os leitores do Redatora de Merda. Se quiser desgraçar a cabeça, aproveite!

RESENHA EM VÍDEO E DISCUSSÕES SOBRE NOS CUMES DO DESESPERO

 

FRASES E CITAÇÕES “NOS CUMES DO DESESPERO”

Por que não podemos permanecer encerrados em nós mesmos? Por que insistimos em correr atrás da expressão e da forma, no intuito de nos esvaziar de conteúdo e sistematizar um processo caótico e rebelde? (p.16)

Não faço a mínima ideia de por que devemos fazer algo neste mundo, de por que devemos ter amigos e aspirações, esperanças e sonhos. Não seria mil vezes mais preferível um recolhimento num canto, longe de tudo, aonde não cheguem os ecos daquilo que constitui o ruído e as complicações deste mundo? (p. 19)

Se continuamos vivos, é graças à escrita, que, por meio da objetivação, ameniza e essa tensão infinita. Criar significa salvar-se provisoriamente das garras da morte. (p. 20)

Tudo o que me acontece parece fazer de mim um balão prestes a estourar. Nesses momentos de uma terrível intensidade, ocorre uma conversão ao Nada. (p. 20)

Morremos por tudo o que existe e por tudo o que não existe. Cada vivência é, nesse caso, um salto ao Nada. (p. 20)

E, se pensássemos o quanto o mundo já sofreu até agora, se pensássemos nas mais terríveis agonias e nos mais complexos suplícios, nas mortes mais cruéis e no mais doloroso abandono, em todos os empestados, em todos os queimados vivos ou nos que definharam de fome – quanto isso diminuiria o nosso sofrimento? Ninguém pode ser consolado, no momento da morte, pela ideia de sermos todos mortais, assim como, num momento de sofrimento, ninguém encontra consolo no sofrimento passado ou presente dos outros. (p. 24)

A verdadeira solidão é aquela que nos isola completamente entre o céu e a terra. (p. 25)

O fato de que existo prova que o mundo não tem sentido. (p. 26)

Escrito hoje, 8 de abril de 1933, dia em que completo 22 anos. Sou invadido por uma estranha sensação ao imaginar que me tornei, nessa idade, especialista na questão da morte. (p. 28)

Mesmo quando queremos morrer, queremos morrer com um remorso implícito no nosso desejo. (p. 29)

Os seres humanos jamais compreenderão por que alguns deles têm de enlouquecer, por que existe – como uma fatalidade inexorável – a entrada no caos, onde a lucidez não consegue durar mais que um relâmpago. (p. 31)

Desejamos o caos, mas temos medo das luzes. (p. 32)

Há questões que, uma vez abordadas, nos isolam em vida e até nos destroem. Ao adentrarmos nelas, não temos mais nada a ganhar ou perder. (p. 33)

Sendo a morte imanente à vida, por que a consciência da morte torna impossível viver? (p 36)

Toda doença é heroísmo; mas um heroísmo de resistência, não de conquista. (p. 38)

Para um depressivo, a sensação da imanência da morte na vida acrescenta um quê de intensidade à depressão, criando uma atmosfera de contínua insatisfação e desassossego que jamais encontrará paz e equilíbrio. (p. 40)

No fundo, tudo se reduz ao medo da morte. (p. 40)

A maioria das pessoas não têm consciência de sua lenta agonia. (p. 42)

Não seria o Nada portanto uma salvação? Mas como pode existir uma salvação no Nada? Se a salvação na existência é quase impossível, como será ela possível na ausência completa de qualquer tipo de existência? (p. 43)

O cansaço separa o homem do mundo e das coisas. (p. 44)

Quanto mais intensa é a sensação da própria finitude, maior é a consciência da infinitude do mundo. (p. 45)

Viver sozinho significa não exigir mais nada e não esperar mais nada da vida. A única surpresa da solidão é a morte. (p. 46)

O remorso exprime afetivamente um fenômeno profundo: o do avanço da morte em vida. (p. 47)

Estou convencido de que não sou absolutamente nada no universo, embora sinta que a única existência real seja a minha. (p. 49)

Nos cumes do desespero, ninguém tem ou pode ter direito ao sono. Por isso, nenhum desesperado autêntico pode se esquecer de sua própria tragédia, mantendo na consciência a dolorosa atualidade de sua miséria subjetiva para além de qualquer limite. (p. 52)

No desespero, a ansiedade e a inquietude são imanentes à existência. Ninguém é torturado desesperadamente por problemas, mas por convulsões e ardores de sua própria existência. (p. 53)

A tristeza surge sempre depois dos fenômenos em que a vida perde um pouco de si própria. Sua intensidade equivale às perdas. (p. 56)

O verdadeiro pensamento é comparável a um demônio que perturba as fontes da vida, ou a uma doença que afeta as raízes da vida. (p. 57)

Há duas maneiras de sentir solidão: sentir-se sozinho no mundo e sentir a solidão do mundo. (p. 63)

Deixo por escrito, para todos os que vierem depois de mim, que não tenho em que acreditar neste mundo e que a única escapatória é o esquecimento absoluto. (p. 64)

Talvez o sofrimento não tenha justificativa alguma, assim como a existência em geral. (p. 67)

Ninguém se suicida por causa de acontecimentos exteriores, mas devido ao seu próprio desequilíbrio interior e orgânico. (p. 68)

Só admiro duas categorias de pessoas: as que podem enlouquecer a qualquer momento, e as que podem se suicidar a qualquer momento. (p. 69)

Por que não me suicido? Porque tanto a morte como a vida me enauseiam. Eu deveria ser atirado a um caldeirão em chamas. Não tenho a mínima ideia do que estou fazendo no universo. (p. 70)

Os cumes, porém, não indicam necessariamente altura, mas penhasco, profundeza. Viver nos cumes do desespero significa chegar aos mais terríveis abismos. (p. 75)

Neste mundo até hoje ninguém morreu por causa do sofrimento alheio. E, quanto àquele que disse que morreu por nós, ele na verdade não morre – ele foi morto. (p. 77)

Estou cada vez mais convencido de que o homem é um animal infeliz, abandonado no mundo, condenado a encontrar uma modalidade própria de vida, inédita na natureza. Sua suposta liberdade o faz sofrer mais que qualquer forma de cativeiro existente na natureza. (p. 83)

A alegria não precisa ser justificada, pois ela é um estado tão puro e generoso, que qualquer elogio é inútil. (p. 87)

O entusiasta é o único que se mantém vivo até a velhice. (p. 92)

Após conhecer a velhice, a dor e a morte, concluímos que o prazer é uma ilusão. (p. 96)

Felizes são aqueles que podem viver no momento, que podem viver o presente absoluto. (p 104)

Só posso lamentar que ainda exista gente que esteja em busca da verdade. Ou será que os sábios até hoje não entenderam que a verdade não tem como existir? (p. 105)

Não há sensação profunda de Infinito sem a estranha sensação da proximidade vertiginosa do fim cósmico, do fim universal. (p. 116)

Sou ao mesmo tempo feliz e infeliz, experimento simultaneamente a exaltação e a depressão, o desespero e a volúpia me governam na mais contraditória de todas as harmonias possíveis. (p. 125)

Só posso amar algo que se apresenta sem reservas, sem compromisso e sem reticências. (p. 127)

Não tenho ideias, tenho obsessões. Qualquer um pode ter ideias. Ninguém despencou por causa de ideias. (p.134)

Como combater a infelicidade? Só se combatermos a nós mesmos, ao percebermos que ela não provém de fora, mas do nosso próprio interior. (p. 137)

Título: Nos Cumes do Desespero
Autor: Emil Cioran
Tradução direta do romeno: Fernando Klabin
Editora: Editora Hedra
Número de páginas: 154
Gênero: Literatura romena; Filosofia

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