Às vezes, não há nenhum aviso. As coisas acontecem em segundos.
Tudo muda. Você está vivo. Você está morto. E as coisas continuam.

Publicado nos Estados Unidos quatro anos após a morte de Bukowski, em 1998, sob o título original de Captain is out to lunch and the sailors have taken the ship, esse livro é o último canto desesperado do “velho safado”. O livro é composto por trechos de seu diário de agosto de 1991 até fevereiro de 1993, selecionados por ele próprio dias antes de morrer, em 09 de março de 1994.

O hábito de apostar em corridas de cavalos, encontros com marginais e desilusões próprias estão presentes em O capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do navio, mas a espinha dorsal deste livro está no que talvez Bukowski sabia fazer de melhor: cruas reflexões filosóficas sobre a vida, sobre a natureza e miséria humanas.

Com ilustrações do desenhista norte-americano Robert Crumb, Buk coloca-se de forma transparente para o leitor, nu, como de hábito e mostra que não se enquadrou e jamais se enquadraria no “sonho americano” e que não se resignou em nenhum momento.

Separei alguns trechos que mais me chamaram a atenção durante a leitura para compartilhar aqui no blog :)

TRECHOS E FRASES DE
O capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do navio

“Mas toda a minha vida tem sido uma questão de lutar por uma simples hora para fazer o que eu quero fazer. Tem sempre alguma coisa atrapalhando a minha chegada a mim mesmo.” (p.12)

“A maioria das pessoas não está pronta para a morte, a sua ou a dos outros. Ela as choca, as apavora. É como uma grade surpresa. Diabos, não deveria ser nunca.” (p.14)

“Levo a morte em meu bolso esquerdo. Às vezes, tiro-a do bolso e falo com ela: “Oi, gata, como vai? Quando virá me buscar? Vou estar pronto.” (p.14)

“Raramente encontro uma pessoa rara ou interessante. É mais que perturbador, é um choque constante. Está me tornando um maldito mal-humorado. Qualquer um pode ser um maldito mal-humorado, e a maioria é. Socorro!” (p.24)

“Não sou boa companhia, não gosto de conversar. Não quero trocar ideias – ou almas. Sou apenas um bloco de pedra para mim mesmo. Quero ficar dentro do bloco, sem ser perturbado.” (p.25)

“Se um homem quer realmente escrever, ele o fará. A rejeição e o ridículo apenas lhe darão mais força. E quando mais for reprimido, mais forte ele se torna, como uma massa de água forçando um dique.” (p.29)

“Mas acho que foi a forma com que me arrastei pela merda que fez a diferença.” (p.49)

“Acho que vou descer e sentar com minha mulher, ver um pouco da estúpida TV. Estou sempre no hipódromo ou nesta máquina. Talvez ela goste disso. Espero. Bem, aqui vou eu. Sou um cara legal, sabe? Descer. Deve ser estranho viver comigo. É estranho pra mim.” (p.59)

“Esta é uma daquelas noites em que não há nada. Imagine se fosse sempre assim. Vazio. Apático. Sem luz. Sem dança. Nem mesmo insatisfação.” (p.60)

“Somos doentes, o peixe-piolho da esperança. Nossas roupas pobres, nossos carros velhos. Nos vemos em direção à miragem, nossas vidas são desperdiçadas, como as de todo mundo.” (p.72)

“Havia outros 20 ou 25 bancos vazios. Ele sentou no que estava ao meu lado. Não gosto tanto assim de pessoas. Quanto mais longe estou delas, melhor eu me sinto.” (p.74)

“Às vezes, não há nenhum aviso. As coisas acontecem em segundos. Tudo muda. Você está vivo. Você está morto. E as coisas continuam.” (p.82)

“Somos finos como papel. Existimos por acaso entre as porcentagens, temporariamente. E esta é a melhor e a pior parte, o fator temporal. E não há nada que se possa fazer sobre isso. Você pode sentar no topo de uma montanha e meditar por décadas e nada vai mudar. Você pode mudar a si mesmo para ser aceitável, mas talvez isso também esteja errado. Talvez pensemos demais. Sinta mais, pense menos.” (p.82)

“Quando estou sendo dilacerado pelas forças, olho para um ou vários dos meus gatos. É só olhar para um deles dormindo ou meio dormindo e relaxo.” (p.103)

“Provavelmente, escrevi mais e melhor nos últimos dois anos do que em qualquer época da minha vida. É como se, depois de cinco décadas fazendo isso, chegasse mais perto de realmente fazê-lo. Mesmo assim, nos dois últimos meses, comecei a sentir um certo cansaço. O cansaço é quase físico, mas também é um pouco espiritual. Pode ser que eu esteja pronto para entrar em decadência. É um pensamento horrível, é claro.” (p.107)

“Na estrada, liguei o rádio e, por sorte, tocava Mozart. A vida pode ser boa em certos momentos, mas, às vezes, isso depende de nós.” (p.127)

“É bom sentar aqui esta noite, neste quartinho no segundo andar, ouvindo o rádio, o velho corpo, a velha mente remendando. Aqui é o meu lugar, assim. Assim. Assim.” (p.141)

Título: O capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do navio
Título original:
Captain is out to lunch and the sailors have taken the ship
Autor: Charles Bukowski
Tradutor: Bettina Becker
Editora: L&PM
Número de páginas: 160
Gênero: Literatura moderna internacional; Diários

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Comentários

01 Comentário | Adicione o seu

  1. João Afonso disse:

    Ja o li várias e várias vezes, sempre me pergunto o que Hank faria se eu o interrogasse. Me sinto pior que lixo por saber que ele me odiaria, mesmo ele sendo a única pessoa capaz de sentir tudo que sinto, ele me odiaria pelo simples fato de ser fã dele. Fã do pior tipo pois a unica coisa que ele gostava nos fãs é que eles compravam seus livros e então ele tinha grana pra mais um vinho do porto – eu não posso lhe pagar isso.

    Ler seus pensamentos faz de minha insônia um momento único a cada noite.

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