Arquivo da Categoria "Textos"

28.07.2015

Notícia urgente: moça é moída por escada rolante. É com essa chamada agressiva, sangrenta e com uma música levemente ensurdecedora que o dia de muitos começa. Eu ouvi bom dia? Ninguém quer, mas a curiosidade força todos a assistirem. O velho ditado, a curiosidade matou o gato – mas ele pelo menos morreu sabendo, não é mesmo? Nada é explícito, as reações são adversas: olhos fechados, mãos na boca, queixos caídos, sons estupefatos. Tortura. No vídeo, uma jovem mãe sobe a tal escada rolante de um provável shopping com seu filho pequeno, os dois chegam ao andar e, ao pisar no Continue lendo

16.07.2015

– Vi a Roberta ontem. – Ah é? E como é que ela tá? – Do mesmo jeito de quando tinha 15. Reclamando das mesmas coisas, falando mal das mesmas pessoas… – O de sempre. – Pois é, o de sempre. – Deve ser chato não conseguir lidar com o fracasso da própria vida e ter que sempre falar dos outros. Cansativo. – Pensei a mesma coisa. Mas o ser humano merda é assim, enquanto não se acerta sozinho, busca erros nos outros. – A famosa “sad but true”? – Vamos levando e lamentando. – É o que está ao Continue lendo

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Chamaram-me de covarde Desde o dia em que parti Disseram que a solução Para os fracos É sempre fugir Correr desenfreado Sem despedidas Alguns impulsos no bolso E um coração quebrado Chamaram-me de covarde Desde o dia em que parti Julgaram minha índole Como se houvesse outra escolha Fiz o que pude, até um pouco mais Mesmo atado E ainda assim Não hesitaram Meu caráter foi contestado Chamaram-me de covarde Desde o dia em que parti Debocharam de minha atitude Mas eu não volto atrás Não que eu possa Está acabado Observo tudo de longe Quem sabe um dia os encontro Provavelmente em outro estado Chamaram-me Continue lendo

Pensamentos ruins têm me rondado Não há nada que eu possa fazer Ou mesmo queira Eles me ajudam a segurar este fado Lamento o meu estado Sinto o tempo passar Ponteiros giram como Um velocímetro descompensado De olho fechados, bem fechados Agraciados Coitados Pouco ansiados, nada ansiados Meu calendário é um confuso emaranhado Não sei que dia é hoje Melhor assim Estou tão cansado Desnorteado Ainda não me encontrei E sei que não irei Não é por malgrado Prestes a cometer um dito pecado Caio, afundo feito uma âncora Pra baixo e sempre Focado Até o fim O que for Continue lendo

Aos que não sabem, é de praxe nos grandes hospitais fazer a identificação dos pacientes internados através de pulseiras coloridas. Não tão coloridas nem tão pouco felizes. A cor delas simboliza o estado de saúde de cada pessoa. As pulseiras verdes, por exemplo, são para os casos de menor gravidade. As amarelas são para os precisam de certa atenção. Já as vermelhas são usadas para emergências. Mas há outra pulseira menos conhecida por todos… A pulseira preta, a cor destinada aos cadáveres. Numa noite gélida da semana passada, diga-se de passagem mais escura do que todas as outras, um renomado neurocirurgião Continue lendo

Sinto muito, mas não sinto nada. Ela disse e partiu. Talvez nunca mais a veja, mas seu cheiro continua por aqui. Jamais esquecerei seu tom de voz carregado em bom e mau humor. Seu riso solto. Seu salto falho. Seu perfume forte. Sua falta de sorte. Sinto muito, mas não sinto nada. Não é do tipo que sente mesmo. Melhor assim.

27.03.2015

Diana come maquiagem e fica com as bochechas coradas, enquanto todos olham seu salto 15 e suas olheiras marcadas. Diana não adormece. Seu sonhos são sempre arregalados como seus olhos pretos, enquanto vozes lhe incentivam a pensar em coisas más. Diana tem sede. Suas pernas finas estão formigando desde os tornozelos até o final das coxas, enquanto os homens, sem dó, vigiam de longe o colo de suas pérolas aniquiladas. Diana não compreende. Levantar seria o fim, o veludo vermelho chama a atenção. Diana sofre náuseas. Moribunda e brilhante, enquanto os garçons de asas pretas servem copos de prata com Continue lendo

18.03.2015

Em negrito, referências a The Doors Você quer falar sobre cotidiano? Eu sou a melhor pessoa pra falar sobre isso. Não que eu leve uma vida muito regrada, talvez sim, não sei. Devo assumir que gosto de ter certos horários e certas rotinas, mas não me parece grave, parece? Sobre o que eu estava falando mesmo? Ah, sim, cotidiano. As pessoas costumam dizer que me perco nos meus próprios assuntos, nunca tenho uma linha de raciocínio, me chamam de estranho, eu os chamo de lerdos. Uma ova. Todos são estranhos, pessoas são estranhas. Voltando ao cotidiano, todo dia tomo meu Continue lendo

– Eu adoro a chuva. – Eu adoro você. – Eu adoro trovões. – E eu adoro a tua boca. – Para! – Você não acredita em uma palavra que eu digo? – Eu acredito… Em algumas. – Eu não te entendo. – Não precisa. – Você se fecha aí. – Vai começar… – Foge de mim. – Veja bem. – É verdade. – Verdade que não é mentira. – Sempre tem uma respostinha na ponta da língua. – Afio todo dia. – Tá vendo? – Não. O quê? – Como é insuportável. – Mas você gosta. – Gosto. – Continue lendo

Meu coração tá dolorido Tá moído, dividido Meu coração tá esquecido Meu coração não pulsa, não pula Não ri nem chora Meu coração não vai, não volta Não fica nem implora. Meu coração tá parado Tá isolado, desamparado Meu coração tá ensanguentado – De que coração você está falando? – Do meu, ué. – E desde quando você tem? – Desde que eu comprei, inclusive, vou lá no açougue trocar, esse não tá funcionando não. Adriana Cecchi