27.03.2015

Diana come maquiagem e fica com as bochechas coradas, enquanto todos olham seu salto 15 e suas olheiras marcadas. Diana não adormece. Seu sonhos são sempre arregalados como seus olhos pretos, enquanto vozes lhe incentivam a pensar em coisas más. Diana tem sede. Suas pernas finas estão formigando desde os tornozelos até o final das coxas, enquanto os homens, sem dó, vigiam de longe o colo de suas pérolas aniquiladas. Diana não compreende. Levantar seria o fim, o veludo vermelho chama a atenção. Diana sofre náuseas. Moribunda e brilhante, enquanto os garçons de asas pretas servem copos de prata com Continue lendo

Meu coração tá dolorido Tá moído, dividido Meu coração tá esquecido Meu coração não pulsa, não pula Não ri nem chora Meu coração não vai, não volta Não fica nem implora. Meu coração tá parado Tá isolado, desamparado Meu coração tá ensanguentado – De que coração você está falando? – Do meu, ué. – E desde quando você tem? – Desde que eu comprei, inclusive, vou lá no açougue trocar, esse não tá funcionando não. Adriana Cecchi

Para ler ouvindo I Started a Joke Às vezes sinto falta e não sei ao certo do quê. É tipo uma saudade daquilo que nunca se teve, uma lembrança do mistério, uma ausência do desconhecido. “Que papo de gente louca”, você diz e eu até te entendo. Fato é que fazia tempo que eu não escrevia um texto assim, corrido, palavra atrás de palavra. Versos cortados, cruzados e rimados ficaram pra depois junto com a dose de whisky que preparei e esqueci de tomar porque agora eu preciso falar. Não sei bem o que acontece comigo. Não sei bem o Continue lendo

25.03.2014

Pingos caem da chuva Carros colidem na rua Malandros surrupiam as carteiras Homens pagam por putas Mãos seguram teu copo Mãos seguram teu corpo Lábios te cercam pela nuca Lábios te cercam como nunca O tempo nada apaga Quando a memória é vingativa Eu seria feliz se te visse de novo Se ainda ouvisse teus passos pelos corredores Mas isso antes de eu ter colocado Àquela comida suculenta no teu prato Adriana Cecchi

Meu amor, Hoje eu te trocaria até por um doce Daqueles tão melados que doem o dente Tira o seu sono É gangue Meu amor, Hoje eu te trocaria até por um filme Daqueles com facada, veneno e Hitchcock Mata o seu amor É sangue Adriana Cecchi

Enfiou um grosso caco de vidro na mão. Não sabe de onde surgiu. Não sabe como fez. Grande habilidade com o artesanato não foi, creio eu. Arrancou o pedaço com um pano enquanto rangia os dentes numa expressão de total desespero. Pareceu ter doído, realmente. Enfim, saiu. Para o alívio dele e também para o meu. Não queria saber de mais nada diante daquela dor latente que inchava e pulsava em sua palma, por seus dedos e que chegava até a ponta de seu cotovelo. — Tá doendo. — Eu imagino. — Imagina nada. — Já fiz coisa pior, acredite, Continue lendo

Fechei os olhos e me vi ao seu lado. Estávamos deitados na sua cama, despretensiosamente, assistindo TV. Você mexia nos meu cabelos e eu, com a cabeça no seu ombro, alisava o seu peito enquanto contava como tinha sido o meu dia. Você ouvia e contava o seu também. E eu ouvia. Nossos pés juntos. Nossas pernas cruzadas. Nossas mãos dadas. Nossos dedos entrelaçados. Éramos um. Somente um nós éramos. Eu ria das bobagens que você falava e das piadas com nome de outras pessoas que você fazia. Você ria de como eu ria. Descia levemente o dedo no meu Continue lendo

29.08.2011

Já era tarde, o sono não chegava, mas era preciso dormir. Tentar, ao menos. Apaguei a luz, desliguei o notebook, uma última olhada no celular e, pronto, deitei. Algumas coisas sempre incomodam, então lá vou eu ajeitar as cobertas e trocar a posição dos travesseiros até encontrar a perfeição. Parece que a perfeição não quer se encontrada, até as meias estão esquentando demais, tiro-as e penso: agora sim. Uma mão por baixo do travesseiro dobrado e o corpo automaticamente vai se recolhendo, as pernas dobram, os joelhos sobem e o outro braço fica perdido naquele meio. Os olhos fechados por Continue lendo